4. Retalhos de vidro, talvez

Como me encher de algo de desejo se nem consegui esvaziar o que já não deveria ocupar tanto? 

A vida é. Se constrói no desconstruído, no espaço vazio. Quem dá nome a esse vazio somos nós

Nós, desesperados por curativos que escondam o real espaço nu, cru, escuro, claro, aberto, magnífico, magnético, envolvente. Eletricamente angustiante.

Seres expostos a energia de criação, mas necessitados de borda pra construção, como uma erva daninha, que se agarra em qualquer superfície pra conseguir sobreviver.

Então dou sequência à construção, 

E como construir algo próximo ao que desejo, sendo que nem sei direito o que o seria?

Em angústias de insatisfação, organizo uma rotina de produção na ânsia de minimizar o que tanto não diz mais de mim (Ou se num pico de ousadia e coragem, perceber o que diz

Tá aí. O desejo me chama. Quantas vezes já chamou e eu o julguei de sujo?

Doce miséria de expressar um coletivo. Economizando pra diminuir uma angústia que não surgiu em mim, mas que sobrevive a partir de mim

E o que além de mim me mantém ali? Acho que isso comprova o quanto sou além de uma, tem muitos outros aqui, eles não precisam ser alimentados até encherem a boca o suficiente pra não conseguir pedir mais, mas talvez apenas não suprimidos, negados, ignorados. 

Acho com um A maiúsculo que talvez esse seja o ponto, o olhar do desejo diz de quem uma vez disse de mim, ou quens... Misturas e construções que dentro do espaço vazio me estendem retalhos pra eu construir o meu tapete, gostaria que vermelho, mas provável que seja de vidro, delicado, vulnerável, transparente, recolado, até que não seja... Pois sempre um novo pedaço está na iminência de me ser apresentado. 

Tapete de retalhos... De tecido? Ou pedaços de vidro? 

Realmente não faz sentido, acho (e esse minúsculo) que cheguei em algo meu. 


Isadora Vieira 

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