3. A criança da adulta
Vou andando pra casa em um dia de muito sol e calor
Uma leve garoa começa, e a sensação de prazer em sentir o corpo perdendo calor é única. — "Que delícia sentir o toque leve da água no que é meu"
Continuo andando e a garoa, desejada a partir do elogio, se mostra agora em chuva forte. Meu corpo que antes se sentia em homeostase com a garoa a que pairava lentamente e sem violência, agora é invadido em um desague que parece incomodar. Ali eu começo a correr
Em algum ponto do caminho com o desconforto da corrida me pergunto o porquê dela... Já houve um tempo que o desejo era que chovesse pra lá eu estar, sentindo.
O que houve com a criança que sente?
Paro, sinto o pingo estalar meu corpo. Solto
Sinto a água me inundar, pesar a roupa, molhar o cabelo lavado e a bolsa que protege minhas criações e necessidades sociais. Incômodo, mas liberdade. Solta
Pelo jeito não é só a criança que gostava de sentir
Aqui se abre muitos espaços de perguntas, como: "o que mais a criança gostava?", "o que houve que esqueceu do que gostava?", "como é olhar o mundo que já parece pré-definido com o olhar dessa que me fez parar de correr?", "quanto mais eu quero me molhar e o que eu posso perder com isso?"
Depois eu penso nesse não saber... Por enquanto eu o desaguo na chuva.
Isadora Vieira
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